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O episódio do célebre naufrágio de D. Manuel de Sousa de Sepúlveda

O episódio do célebre naufrágio de D. Manuel de Sousa de Sepúlveda

 

Entre as mais célebres tragédias marítimas de toda a História portuguesa está certamente o naufrágio de D. Manuel de Sousa de Sepúlveda, que deu origem a uma rica e conhecida tradição intertextual e interdiscursiva, desde a segunda metade do século XVI até à literatura contemporânea.

Publicado anonimamente em 1555, logo depois desta tragédia marítima ter ocorrido, o relato do naufrágio depressa se tornou num caso triste e digno de memória na cultura e literatura portuguesas. A sua ávida leitura pelo povo mais simples, bem como pelos nobres e letrados, desencadeou edições sucessivas deste folheto de cordel.

Um dos relatos mais notáveis foi efectuado pelo prestigiado poeta quinhentista, Luís Vaz de Camões, que imortalizou o acontecimento pela boca do terrível Adamastor na magnificente obra Os Lusíadas, editada em 1572.

No dia 3 de Fevereiro de 1552, saiu de Cochim (Índia) o galeão São João, comandado por Sepúlveda e recheado de mercadorias locais. Apesar da data tardia para apanhar ventos de feição, o comandante partiu ciente dos riscos e com a esperança que Deus evitasse males maiores para a sua tripulação e, principalmente, para a sua esposa, D. Leonor de Sá, os dois filhos do casal e um outro filho bastardo. A bordo iam também os fidalgos Pantaleão de Sá (cunhado do comandante), Tristão de Sousa, Diogo Mendes Dourado de Setúbal e Amador de Sousa, além de soldados, o mestre, o contramestre, o piloto da nave, carpinteiros, calafates, mulheres, aias, crianças e muitos marinheiros e escravos. Os ventos, porém, não sopravam na direcção desejada e as velas ruins do barco tardavam em levar o galeão ao Cabo da Boa Esperança, o que motivou Sepúlveda a pedir a André Vaz, o piloto, para aproximar o São João da costa, de forma a arribarem em Moçambique.

Nessa altura, uma tempestade furiosa partiu ao meio o leme e rasgou as velas da embarcação. Perante este cenário, o comandante ordenou a construção de um novo leme e novas velas, com as madeiras e com as roupas que existiam a bordo a servirem de matéria-prima para os marinheiros desesperados. Entretanto, cortaram o mastro da proa que estava a abrir a nau e a levar o barco ao fundo.

No dia 8 de Junho, a ventania e a força das marés começaram a empurrar para terra o desgovernado galeão que só por milagre se aguentou sobre as ondas. Sepúlveda ordenou então que uma manchua (pequena embarcação das naus), cheia de homens corajosos, fosse à praia mais próxima para descobrir um sítio onde encalhar a embarcação. Após o retorno dos remadores e com a informação de que existiam condições para lançar a âncora, o comandante calculou poder desembarcar toda a gente para terra e recolher as armas e mantimentos. Assim, Sepúlveda, juntamente com a mulher, os filhos e mais vinte homens, alcançaram a praia.

Logo a seguir, o vento voltou a soprar com tanta intensidade que três manchuas se perderam nas águas, arrastando consigo todos os marinheiros que transportavam. Após três dias nas terras do Natal, o galeão desceu para o fundo do mar agitado, sobrevivendo cerca de 200 portugueses e 300 escravos. Apesar do cenário dantesco, a tragédia estava só a começar.

A caminhada dos sobreviventes do naufrágio

Pela areia sobraram estilhaços de madeira mas nem uma tábua inteira restou para construir uma nova embarcação. Sepúlveda aconselhou-se com os fidalgos e decidiu ficar naquela praia, a aguardar a convalescência dos feridos, preparando a partida por terra para Sofala, resistindo aos perigos, à fome e à sede, ao calor diurno e ao frio nocturno. Doze luas depois, o comandante exortou a companhia a rumar em direcção ao rio descoberto por Lourenço Marques.

Na liderança da caminhada estava o próprio Sepúlveda com a sua família, André Vaz com uma bandeira e um crucifixo, seguidos de perto pelos restantes sobreviventes. O caminho era penoso e muitos portugueses e escravos foram morrendo. Alguns de exaustão, outros devorados pelas feras do mato. Um deles era o filho bastardo de Sepúlveda. Ao fim de três meses de caminhada, junto a um rio com três braços, a companhia deparou-se com duas aldeias lideradas por um indígena. O bom acolhimento da povoação ajudou na decisão de ali permanecerem durante uma semana.

 

André Vaz acreditava estar perante a Baía de Lourenço Marques, e, em consequência, na iminência de serem salvos por um navio da carreira da Índia, mas Sepúlveda, com a cabeça a latejar de desgosto e cansaço, decidiu continuar a jornada, pedindo ajuda aos habitantes locais para cruzar as águas muito largas.

Na outra margem, o comandante encontrou a companhia reduzida a cento e vinte pessoas, o que não esmoreceu a sua vontade em prosseguir viagem. Cinco dias depois encontraram um novo rio (o actual rio Umbelúzi e um dos três que desaguam na Baía de Lourenço Marques) e, junto à sua margem, outro grupo de indígenas contactou com os portugueses. Desta vez, porém, a ajuda foi recusada porque as armas dos lusitanos metiam medo aos habitantes da região. Sepúlveda, após demorada discussão com os restantes membros da comitiva e convencido que aquele era o rio certo, entregou as armas.

No entanto, a aldeia era pequena demais para alimentar tanta gente o que motivou a partida de membros da comitiva para aldeias vizinhas. Sem armas e mantimentos, cerca de noventa portugueses partiram sem saberem bem para onde. Dois dias depois os indígenas atacaram o cortejo e roubaram as roupas dos destroçados corpos lusos.

D. Leonor de Sá, despida, atirou-se logo para o chão, onde foi cavada uma cova com a qual escondeu o corpo esbelto e nobre. Todos nus, os sobreviventes do naufrágio desviaram o olhar do comandante e da sua família com alguns, entre os quais André Vaz, a partirem rumo a outras paragens, em busca de mantimentos. Sepúlveda ficou, sobrevivendo como podia, alimentando a sua família com frutos do mato. Estava escrito no destino que aquele local seria o último palco da sua vida.

Um dia retornou do campo e um dos filhos estava morto. No dia seguinte morreu a esposa e o último filho. Com o rosto apoiado numa das mãos, sem dizer nada, nem chorar, durante meia hora repousou os olhos em D. Leonor. Com a ajuda das escravas, abriu uma cova na areia e enterrou a amada e o filho. Depois, levantou-se e entrou pelo mato dentro para nunca mais voltar.

Esta estória, no sentido de fábula, seria apenas mais uma das muitas que perduram na História nacional se não acontecesse a espantosa coincidência de, com tantos erros e enganos do comandante do São João, o “cavaleiro” de “negro fado” de Camões ter ido ao encontro da Morte em terras da Manhiça.

ESTE É O TERCEIRO ARTIGO DA REPORTAGEM:

MANHIÇA, TERRA DE TRAGÉDIA, TERRA DE ESPERANÇA (Parte I)

A CHEGADA DOS PORTUGUESES À ÁFRICA AUSTRAL (Parte II)

CONTINUAÇÃO DA REPORTAGEM NO PRÓXIMO ARTIGO:

MOÇAMBIQUE: A FORMAÇÃO DE UMA NAÇÃO AFRICANA (Parte IV)

 

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