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Moçambique: a formação de uma Nação Africana

Moçambique: a formação de uma Nação Africana

 

Durante o século XVIII floresceu no território moçambicano outro negócio para além das plataformas comerciais em torno do ferro, cobre e ouro. Devido à necessidade de mão-de-obra existente no Brasil, os naturais das regiões do interior começaram a ser capturados para serem vendidos como escravos.

Apesar dos acordos feitos, em meados do século XIX, entre Portugal e Inglaterra com vista à cessação deste comércio, a verdade é que o tráfico clandestino de escravos se manteve até aos primeiros anos do século XX. Ainda no século XIX, Portugal deparou com outra contrariedade no território moçambicano: o desencadear de conflitos tribais no sudoeste do país, com origem em ataques perpetrados quer pelo emergente reino dos Zulos, quer pelos povos Zwangendaba e Soshangane, que recusaram subjugarem-se aos portugueses.

Com as fronteiras definidas através de acordos diplomáticos com a Inglaterra, em que Portugal foi obrigado a ceder aos interesses ingleses devido às elevadas dívidas que tinha para com os britânicos, Moçambique desenvolveu-se através da implantação de grandes companhias privadas que se dedicavam à agricultura, à exploração mineira ou mesmo à construção de vias rodoviárias e ferroviárias.

Estas companhias cresciam à custa da utilização de trabalho forçado, da imposição de elevados impostos e do estabelecimento de baixos salários. Este quadro não se alterou quando em Portugal o golpe de Estado de 1926 instituiu uma ditadura, baptizada mais tarde de Estado Novo, que passou a controlar directamente as colónias. O governo português terminou neste caso com as concessões a empresas privadas e aplicou políticas proteccionistas por altura da Grande Depressão de 1930.

Estas medidas viriam a resultar na acumulação de capital que só seria investido na década de 50 em grandes projectos para o desenvolvimento de infra-estruturas comunicacionais. Este investimento coincidiu com a chegada de milhares de colonos portugueses que pretendiam aproveitar as várias oportunidades que o Estado Novo lhes oferecia e que eram recusadas aos moçambicanos, um aspecto da política ultramarina portuguesa que proporcionou o aparecimento de ideais independentistas.

Moçambique: a criação da FRELIMO

Estes ideais foram consolidados, em 1962, com o nascimento da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) que, após alguns desentendimentos internos, iniciou uma política de guerrilha armada em 1964, provocando uma guerra que, para Portugal, representava mais um conflito a juntar aos que ocorriam nas outras colónias portuguesas em África.

A revolução de 25 de Abril de 1974 derrubou a ditadura em Portugal e implantou a democracia, abrindo as portas ao processo de descolonização, classificada por muitos como apressada e pouco lógica. A FRELIMO, aproveitando as suas posições militares no norte e centro de Moçambique e com apoio de países comunistas, com o Mundo mergulhado na Guerra Fria, liderou o processo de independência, declarando, no dia 25 de Junho de 1975, a República Popular de Moçambique como estado independente e com uma Constituição que permitia apenas a existência desse partido, conduzido pelo malogrado Samora Machel.

 

Existe todo um quadro histórico, complexo e denso, na formação da nação moçambicana que, após várias fases de avanços e recuos, apenas se fundou quando o país atingiu a independência. Num passado longínquo, encontramos no espaço geográfico em que se configura Moçambique de hoje vários grupos étnicos, várias dinastias ou impérios mais ou menos organizados do ponto de vista social. Com efeito, para a maioria desses agrupamentos, a dimensão da Nação em que se inseriam não ia para além dos horizontes do limitado espaço em que circulavam.

Ninguém tinha a noção de pertencer, em partilha com outros, a uma Nação que se chamasse Moçambique. Aliás, a própria história explica, de forma lendária, a origem da palavra Moçambique: ela provem de um Sultão Árabe que se estabelecera na Ilha, hoje conhecida por Moçambique, o qual se chamava Sultão Mussa Hal Biq, nome que passou, por corruptela, para o qual é hoje conhecido.

Esse longo processo histórico tem como consequência, na actualidade, uma identidade cultural partilhada por oito países, unidos por um passado vivido em comum e por uma língua que, enriquecida na sua diversidade, se reconhece como una.

Os países que integram a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor) são responsáveis pelo facto de o português ser a sexta língua mais falada do Mundo, com duzentos milhões de pessoas a utilizarem diariamente a mui nobre e digna língua de Camões.

Também não foi por acaso que a FRELIMO, quando teve que decidir qual seria a língua oficial de Moçambique, tenha optado pelo português. Afinal, esta era a única língua comum que as inúmeras tribos e etnias moçambicanas sabiam falar, embora de forma limitada, o que a tornava mais eficaz para consolidar a ideia de uma nação.

ESTE É O QUARTO ARTIGO DA REPORTAGEM:

MANHIÇA, TERRA DE TRAGÉDIA, TERRA DE ESPERANÇA (Parte I)

A CHEGADA DOS PORTUGUESES À ÁFRICA AUSTRAL (Parte II)

 O EPISÓDIO DO CÉLEBRE NAUFRÁGIO DE D. MANUEL DE SOUSA DE SEPÚLVEDA (Parte III)

CONTINUAÇÃO DA REPORTAGEM NO PRÓXIMO ARTIGO:

O FATÍDICO 7 DE SETEMBRO DE 1974 EM MOÇAMBIQUE (Parte V)

 

 

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