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Hotel do Buçaco: uma nau bem frequentada a flutuar num mar verde

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Hotel do Buçaco: uma nau bem frequentada a flutuar num mar verde

 

Legado de reis, o Hotel do Buçaco chega-nos como herança de uma monarquia em estado terminal. O edifício de opulência inquestionável foi mandado construir por um monarca que pouco dele gozou, assistiu às aventuras amorosas do seu sucessor e ofereceu estadia a figuras influentes da música, da literatura e da política. Neste post, fazemos um breve apanhado dos acontecimentos que marcam a história do atual Palace Hotel do Bussaco.

Estávamos no dia 27 de setembro de 1910 quando D. Manuel II se dirige ao Buçaco para participar na inauguração de um novo museu militar. A escolha da data tinha sido feita em função do centenário de uma batalha sangrenta que ali aconteceu, opondo as tropas francesas de Massena ao exército anglo-luso, liderado por Arthur Wellesley. Momentos antes da chegada ao local, o rei é apupado por um grupo de populares de vários setores. Nada de estranho, pensou ele, apenas um sinal dos tempos que, afinal, já não eram como antigamente.

A propósito da batalha do Buçaco, subsistem relatos de corpos espalhados por toda a serra, mas o que aqui importa salientar é a ironia da História. Cerca de uma semana depois da inauguração, a 5 de outubro de 1910, D. Manuel II é deposto, acabando por perder o lugar para a Républica, cujos ideais eram, na sua origem, semelhantes aos dos de Napoleão. O Palácio do Buçaco, mandado construir pelo seu pai, D. Carlos, foi o local onde passou as últimas férias antes do exílio, ainda que a escolha não tenha sido consciente.

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Meses antes da deposição, o monarca tinha vagueado pelas salas e pelos jardins. Diz-se que estava perdido de amores pela bela Gaby Deslys, uma atriz e corista francesa com quem chegou a partilhar a alcova, explorando as sensações dos seus vinte e poucos anos. O primeiro encontro foi em 1909 no Thêatre des Capucines, em Paris, e em julho de 1910, ambos se retiraram para o Buçaco, onde ficaram durante largas semanas.

A relação – que foi tudo menos discreta – deu origem a um verdadeiro escândalo, comentado pelas boas e pelas más línguas nacionais e internacionais. A reputação de jovem namoradeiro não abonou a favor de D. Manuel II e, de uma forma ou de outra, acabou por contribuir para a sua deposição. A relação do rei com a atriz terminou não muito depois do fim da monarquia: ambos continuaram a encontrar-se em Inglaterra, mas em 1911 o relacionamento teve um ponto final.

Esta é só uma das muitas histórias que o Hotel do Buçaco encerra. A imponência da construção é discreta, mas capaz de amplificar sensações através de um ambiente tranquilo onde os pormenores se encaixam numa harmonia subtil. Muitos se referiram ao local como uma nau, uma embarcação que se mantém à tona no mar verde envolvente, que é a Serra do Buçaco. Com uma beleza forte, mas suave, a paisagem é tão movediça quanto o mar, configurando-se suave e calma ou repleta de uma força e grandiosidade incríveis.

Agatha Christie, arquitetura e jardins

Com pouco mais de cem anos de existência, a estrutura do edifício é relativamente recente. O ambiente é convidativo a quem gosta de passar horas na sala de leitura, descobrir pormenores e encontrar respostas para os enigmas deixados pela luz que entra pelas vidraças. Foram talvez esses enigmas que conquistaram Agatha Christie. A escritora inglesa esteve hospedada no mês de julho de 1965. Vinha com Max Mallowan, marido e arqueólogo com interesse em visitar as ruínas de Conimbriga. Consigo, a escritora terá trazido as personagens de Hercules Poirot e Miss Marple que certamente a acompanharam na exploração do palácio e dos jardins.

E é precisamente aos jardins que devemos muita da harmonia vivida no Palace Hotel do Bussaco. A floresta é muito anterior ao edifício e começou a ser cuidada pelas ordens religiosas. Antes da chegada dos frades da Ordem dos Carmelitas Descalços, já lá se tinham instalado os frades beneditinos. Com cerca de cem hectares para usarem como quisessem, os carmelitas resolvem plantar uma floresta que acabou por crescer. É graças a esta floresta que se deve a metáfora da nau que há pouco referimos e na qual é impossível não reparar, mesmo que a visita seja breve.

 

A ordem para a construção do palácio só ocorreu já nos finais do século XIX. O objetivo de D. Carlos era que aquele espaço servisse como um pavilhão de caça real. O regicídio impediu que tanto ele como o seu filho primogénito dessem tal uso ao palácio, mas o envolvimento na construção faz com que a história do monarca esteja para sempre ligada à do hotel do Buçaco.

No edifício participaram grandes nomes das Artes. A construção esteve maioritariamente a cargo de Luigi Manini, arquiteto e cenógrafo do Teatro Nacional São Carlos. Os custos associados à obra ergueram fortes críticas sociais: na altura, Carolina Michaëlis chegou a afirmar que o investimento estava a delapidar o tesouro nacional. Para fazer face às críticas, as obras foram aceleradas: para isso, resolveram chamar outros grandes nomes como o Manuel Joaquim Norte Júnior e Nicola Bigaglia. Os Descobrimentos foram a inspiração maior e é a eles que são dedicados azulejos e decorações. Afinal, não é por acaso que o hotel Buçaco é muitas vezes comparado à Torre de Belém e ao Mosteiro dos Jerónimos, embora tais monumentos não sejam da mesma altura.

Os quartos mais majestosos são, como seria expectável, os dos reis. A suite D. Amélia, esposa de D. Carlos e última rainha de Portugal, integra uma pequena sala e permanece equipada com o mobiliário original dos anos 20. A viagem no tempo é feita pelos pormenores: quem visita, pode ver as loiças de banho e reconstituir a atmosfera do século passado. Mais ampla e grandiosa é a suite do rei, com uma à altura com vista para os jardins.

O hotel do Buçaco e outras figuras que por lá passaram

Hoje, quem resolve tomar o pequeno-almoço no restaurante pode admirar os tetos de inspiração árabe, acompanhado por um ementa que pode ser ou não a condizer. Até meados dos anos 30, a ementa do dia estava exclusivamente escrita em francês. Tal devia-se ao chefe contratado, Paul Bergamin, que era de origem suíça. Foi este que cozinhou vários banquetes, servindo pratos que tornaram o restaurante num dos mais procurados do país.

Outro motivo que faz com que o Buçaco seja muito procurado é a coleção de vinhos, apanágio da casa. Era por causa destes que muitos rumavam à serra no centro do país. Um dos apreciadores era nem mais, nem menos do que António de Oliveira Salazar. Nas viagens a Santa Comba Dão, cidade onde nasceu, o ditador português costumava parar para tomar um copo de Vinho do Porto.

Este, contudo, não foi a única figura política. No livro de honra do hotel do Buçaco há lugar para todos os presidentes da República da Democracia, para refugiados da II Guerra Mundial, músicos, como Cole Porter, escritores, dignatários do Estado Novo, reis, imperadores e prémios Nobel da Literatura,  como Luigi Pirandello, Gabriela Mistral e José Saramago.

A maior parte das inscrições neste livro de honra são breves e formais, no entanto há uma que se destaca por ser divertida e bem-humorada. As palavras dirigem-se a José Rodrigues dos Santos, diretor do hotel durante muitos anos, e estão escritas na letra da própria Amália: “Senhor Santos / Gostei tanto daquele chouriço assado / Que quase perdi o canto / Se não, cantava-lhe um fado”.

 

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