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Cheias de 2000 em Moçambique: a tempestade das tormentas

Cheias de 2000 em Moçambique: a tempestade das tormentas

 

As cheias não são propriamente raras em Moçambique. Habitualmente na estação das chuvas (que corresponde ao Verão moçambicano, quando o Sol se aproxima do Equador, durante a passagem do equinócio), o país africano absorve chuvas intensas, que se repetem de forma ciclíca. Contudo, nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março de 2000, a passagem de vários ciclones agravou em 90 por cento a situação, criando cheias catastróficas.

Os ciclones, nesta região, formam-se no Oceano Índico e rumam para sudoeste. A maior parte das vezes dissipam-se no Canal de Moçambique, antes de atingirem a costa do continente africano, ou quando chegam à ilha de Madagáscar. Em 2000, as cheias foram provocadas directamente por imensa chuva e ventos com mais de 100km/h. No total, estima-se que, além de 700 mortos, esta catástrofe tenha provocado 300 mil refugiados e um milhão de desalojados.

Um depoimento incrível

“Um dos responsáveis do bairro passou de casa em casa, na madrugada do dia 27 de Fevereiro, a informar os residentes que as águas estavam a chegar à cidade. Eu não quis acreditar e não saí. Quando vi as águas a avançarem como um monstro, diante dos meus olhos, só tive tempo de levar duas capulanas e correr para a escola, pensando que aí estaria a salvo, mas quando continuaram a avançar, fomos para os Caminhos de Ferro. As águas perseguiam-nos como bichos e avançavam de todos os lados, com toda a força. Decidi subir a uma árvore, com grandes troncos, talvez uma mafurreira. Éramos muitos na mesma árvore, não sei contar o número de pessoas. Parece uma brincadeira e ao mesmo tempo um sonho dizer que vivemos alguns dias em cima de uma árvore. Amarrei os meus joelhos a um ramo, com uma das capulanas, para evitar cair. Em cada tronco havia muitas pessoas. Urinávamos e defecávamos de cima da árvore. Às vezes, durante a noite, molhávamos os outros que estavam nos troncos mais abaixo, que pediam: «por favor, não urinem com tanta força». Os que tinham mais flexibilidade conseguiam apanhar a maçaroca das plantas ou algo comestível que as águas transportavam. Na concha das mãos, bebíamos a mesma água na qual defecávamos e urinávamos. Tivemos de fazer a escolha: morrer de sede ou beber aquela água. No quarto dia apareceu um helicóptero que nos levou para um centro, onde me trataram de uma doença do estômago que, entretanto, tinha contraído. Um mês depois regressei a casa, onde tudo o que eu tinha foi levado pelas águas: a casa, a roupa, as panelas, a esteira e o fogão.”

Este é o impressionante relato de Celina Macuácua, uma das milhares de vítimas que as cheias de 2000, as piores em 150 anos, provocaram em Moçambique. Em Janeiro, Fevereiro e Março desse ano, o povo moçambicano foi obrigado a dar o máximo do que tinha como nação para fazer face a um golpe sem precedentes na sua história.

O país foi varrido de norte a sul por chuvadas colossais que deixaram um rasto de devastação e prejuízos, apenas minorado pela valiosa ajuda da comunidade internacional. A preparação local e a solidariedade internacional impediram que as cheias se tivessem tornado numa catástrofe ainda maior. Embora tenham morrido 700 pessoas, 45 mil pessoas foram salvas graças ao esforço conjunto de diversos países, com destaque para a bebé Rosita que nasceu em cima de uma árvore e se tornou o símbolo da esperança do povo moçambicano.

As cheias de 2000 em Moçambique

As chuvas torrenciais e as cheias já estavam previstas desde Setembro de 1999, em parte devido ao ciclone La Nina, mas ninguém podia prever a magnitude da calamidade.

A pluviosidade anormal no sul de Moçambique, no norte da África de Sul e no Zimbabwe, foi causada por uma série de ciclones tropicais que se dirigiram para o interior em vez de se moverem ao longo da costa. O resultado foram quatro cheias nos rios do sul e centro do país.

A segunda e a terceira cheias foram as mais dramáticas. O ciclone Connie derramou 454 mm de chuva em dois dias, um valor nunca antes atingido. A resposta imediata à desgraça foi principalmente local, com as equipas sul-africanas de televisão e os helicópteros da Força Aérea a chegarem a Moçambique em resposta à segunda cheia.

 

Depois, veio a terceira cheia do rio Limpopo, com a água a subir ao nível mais alto em 150 anos. Foi essa cheia que obrigou Celina Macuácua e milhares de outros a subirem às árvores. Na cidade do Xai-Xai não havia memória de inundações com água acima dos joelhos que tivessem durado mais do que alguns dias. Desta vez havia água a 4 metros de altura e a situação durou quase um mês.

Uma área maior do que o País de Gales estava debaixo de água. As equipas de televisão no terreno filmaram os dramáticos salvamentos, os actos heróicos e desesperados, o que desencadeou a massiva resposta internacional. Nove forças aéreas internacionais voaram para Moçambique, o que, de acordo com as Nações Unidas, originou a maior operação aérea de salvamento alguma vez montada em tão curto espaço de tempo.

Foram afectados quatro rios: o rio Maputo, o rio Umbelúzi, o rio Incomáti e o rio Limpopo. A ocorrência de chuvas torrenciais significava que os rios subiam e baixavam muito rapidamente. A 12 de Janeiro, o rio Incomáti e o Limpopo transbordaram das suas margens, afectando mais de 40 mil pessoas. Os dois rios baixaram e voltaram a subir repentinamente e num só dia, a 16 de Janeiro, o caudal do Incomáti aumentou 20 vezes. Essa cheia deixou cerca de 20 mil pessoas isoladas na Ilha Josina Machel e Calanga, no distrito da Manhiça.

Numa quarta-feira, 9 de Fevereiro, o rio Incomáti inundou a principal estrada norte-sul, a Estrada Nacional Nº 1, num ponto a apenas 120 quilómetros a norte de Maputo, interrompendo toda a comunicação rodoviária. O ciclone Eline estava a aproximar-se da costa moçambicana e quando atingiu a parte central do país, a 22 de Fevereiro, provocou novos e avultados prejuízos.

Após uma curta paragem das chuvas e do aparecimento do Sol radioso, as autoridades e a população pensavam que a situação estava estabilizada mas Março trouxe consigo o ciclone Glória e as consequentes chuvas torrenciais e ventos fortes, afectando sobretudo o sul e o centro do país. Os níveis de pluviosidade aumentaram o que prejudicou os esforços de socorro e causou novas inundações.

De facto, nem o Limpopo nem o Incomáti chegaram a baixar de nível em Fevereiro e Março, pelo contrário, com as novas chuvas as águas subiram ainda mais. O rio Incomáti subiu para 2 metros acima do nível de alerta no dia 19 de Março. Pouco tempo depois, começou o indispensável processo de recuperação dos territórios alagados e o regresso dos desalojados.

O pesadelo tinha acabado, a tragédia tinha atingido de novo Moçambique e, tanto na comunidade local como internacional, cresceu imediatamente o sentimento de que estas cheias tinham sido uma tremenda injustiça, expandindo-se um movimento de solidariedade à escala mundial.

ESTE É O OITAVO ARTIGO DA REPORTAGEM:

MANHIÇA, TERRA DE TRAGÉDIA, TERRA DE ESPERANÇA (Parte I)

A CHEGADA DOS PORTUGUESES À ÁFRICA AUSTRAL (Parte II)

 O EPISÓDIO DO CÉLEBRE NAUFRÁGIO DE D. MANUEL DE SOUSA DE SEPÚLVEDA (Parte III)

MOÇAMBIQUE: A FORMAÇÃO DE UMA NAÇÃO AFRICANA (Parte IV)

O FATÍDICO 7 DE SETEMBRO DE 1974 EM MOÇAMBIQUE (Parte V)

OS ANOS DA GUERRA CIVIL DE MOÇAMBIQUE (Parte VI)

MOÇAMBIQUE: UM DOS PAÍSES MAIS POBRES DO MUNDO (Parte VII)

CONTINUAÇÃO DA REPORTAGEM NO PRÓXIMO ARTIGO:

O DEDO DO HOMEM NAS CHEIAS DE 2000 EM MOÇAMBIQUE (Parte IX)

 

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