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Joya de Céren: uma visita à “Pompeia das Américas”

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Joya de Céren: uma visita à “Pompeia das Américas”

 

Chamam-lhe a “Pompeia das Américas“, mas é difícil encontrar semelhanças entre os achados arqueológicos de um e de outro lado do mundo. Tanto as civilizações como as épocas  são muito diferentes, todavia – tal como aconteceu, no ano 79 d.C., em Pompeia  – também  a comunidade de Joya de Cerén, em El Salvador, foi apanhada por uma enorme erupção vulcânica, por volta do século VII.

Atualmente, esta é a vila maia em melhor estado de preservação da América Latina, motivo que tem atraído inúmeros estudiosos e turistas ao longo dos anos. A primeira exploração foi feita em 1978 por Payson Sheets, antropólogo e professor da University of Colorado Boulder,  que encontrou os vestígios da comunidade por debaixo de 5 metros de terra e pedra, formados pela lava expelida pelo vulcão Loma Caldera.

Recentemente, em novembro de 2015, novas investigações fizeram com que o mundo voltasse a olhar atentamente para Joya de Céren. De acordo com os especialistas, ao contrário do que era regra na época, nesta comunidade não havia imposição da elite sobre o povo. O que é que isto significa? Por outras palavras, não existia a subjugação hierárquica tradicional da civilização maia, embora houvesse separação entre os grupos sociais.

O modelo de vivência, assim, era menos autoritário e mais civilizado. As camadas mais altas não intervinham nas liberdades individuais, ficando-se apenas pela cobrança de impostos. Havia também uma certa liberdade religiosa e as plantações do cidadão comum só a eles diziam respeito. As interações entre as elites e as camadas não-privilegiadas davam-se através do comércio, principalmente de facas de obsidiana, machados de jade e cerâmica.

Estes objetos permanecem conservados graças à ação da lava. Em algumas peças de cerâmica ainda é possível identificar marcas digitais de alguns dos 200 membros que, na altura, compunham a comunidade. Visíveis estão também as estruturas originais: falamos de oficinas, armazéns, cozinhas, edifícios religiosos e até uma sauna comunitária. Ao todo, são cerca de 3 quilómetros quadrados com trilhos e pegadas que subsistem onde outrora houve jardins. Há também vestígios de uma enorme colheita de mandioca que terá sido plantada pouco tempo antes da erupção.

 

Em Joya de Ceren  há marcas, mas não há habitantes

Quando pensamos em Pompeia, lembramo-nos imediatamente das imagens de pessoas encolhidas que se transformaram em verdadeiras estátuas depois da passagem da lava do Vesúvio. No entanto, quando as escavações de Céren foram feitas não foram encontrados quaisquer corpos. Tal deve-se ao facto de os habitantes terem fugido momentos antes da erupção.

Ao que tudo indica, tais fenómenos naturais não eram assim tão incomuns. A comunidade maioritariamente agrícola encontrava-se habitada desde 1200 a.C., compondo um dos extremos sudoeste do Império Maia. Uma das erupções terá ocorrido em 200 d.C, sendo que a área voltou a ser ocupada 200 anos mais tarde. A erupção que subterrou a vila em lava deu-se, mais tarde, por volta de 590 e julga-se que, alguns dias antes, tinha havido um terramoto que levou a população a evacuar. Para trás foram deixados todos os utensílios que há pouco referimos, assim como importantes vestígios de material orgânico (no caso, a mandioca).

Como mencionado, o local foi descoberto em 1976 e as explorações estiveram a cargo de Payson Sheets. Tudo aconteceu por acaso, quando começaram as primeiras escavações com uma escavadora para um projeto agrícola apoiado pelo governo. Na década seguinte as explorações continuaram e até à data foram colocados a descoberto 70 edifícios.

Joya de Céren foi considerada Património Mundial da UNESCO em 1993, envolvendo também a população que vive a cerca de um quilómetro de distância das ruínas. Estas pessoas dedicam-se maioritariamente ao cultivo agrícola, atividade que mantêm segundo costumes dos seus antepassados. Também eles colaboram nas escavações e contribuem ativamente para a preservação dos achados.

 

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