Amesterdão: a cidade que não pede desculpa por ser o que é

Existem cidades que tentam agradar a toda a gente. Amesterdão não é uma delas.

O choque silencioso do Red Light District

Quando cheguei ao Red Light District, a primeira coisa que me surpreendeu não foi o que estava à mostra — foi a normalidade com que toda a gente passava por ali. Sem olhares enviesados, sem julgamentos em voz alta, sem o desconforto que eu esperava sentir. A prostituição existe, é legal, é regulamentada, e a sociedade holandesa simplesmente… seguiu em frente.

Para quem vem de uma cultura onde este assunto ainda é murmurado, é uma espécie de choque silencioso.

Ali perto fica o Red Light Secrets, o museu da prostituição, e esse foi uma surpresa. Explícito, sim, mas também genuinamente curioso do ponto de vista humano e social. Há um poster com dez dicas para se tornar uma prostituta bem-sucedida — ri-me, confesso, e depois fiquei a pensar no que diz sobre uma sociedade que consegue tratar um assunto assim com seriedade e humor ao mesmo tempo, sem drama nenhum.

O que me tocou de outra forma foi um espaço dentro do museu onde as pessoas deixavam escritas as suas confissões. Anónimas, cruas, honestas. Algumas assinadas, outras anónimas — mistas. Há qualquer coisa de muito poderoso em ver isso num lugar assim — como se o próprio museu criasse uma permissão para dizer o que normalmente não se diz.

O Museu do Sexo é outra experiência, igualmente sem filtros, mas de natureza diferente — mais histórica e visual, para quem quiser completar o quadro. (E se gosta de descobrir cidades pelos seus museus, espreite a nossa visita virtual aos melhores museus do mundo.)

O Jordaan: outra cidade dentro da mesma cidade

Mas Amesterdão é maior do que o Red Light District, e foi no Bairro do Jordaan que percebi isso.

O Jordaan é outra cidade dentro da mesma cidade. Ruas mais estreitas, mais calmas, mais humanas — o bairro pitoresco por excelência, com as casinhas todas juntas a criar um ambiente que se sente imediatamente mais acolhedor.

É também aqui que fica a Casa de Anne Frank, e essa visita foi de uma intensidade diferente de tudo o resto. A história que aconteceu entre aquelas paredes não se explica — sente-se. Saí de lá em silêncio. (Já tínhamos falado deste e doutros cantos da cidade no nosso retrato de Amesterdão, a cidade dos canais, da liberdade e da arte.)

As bicicletas são outro mundo

As bicicletas são outro mundo. Há um parque de estacionamento de bicicletas — e quando digo parque, digo mesmo isso, uma estrutura enorme — com centenas delas amontoadas umas em cima das outras de forma que à primeira vista parece caos total. Irritou-me e fascinou-me ao mesmo tempo. Depois percebi que aquilo é, no fundo, o retrato perfeito de uma cidade que escolheu outro modelo. Não é bonito, mas funciona. E funciona porque toda a gente aderiu.

Mas as bicicletas em Amesterdão não são só transporte — são também expressão. Pelos canais encontram-se aos montes, enfeitadas, decoradas, personalizadas. Flores, pinturas, acessórios, cores. Cada uma conta qualquer coisa sobre quem a usa.

Há qualquer coisa de muito holandês nisso: a funcionalidade e a individualidade a coexistir sem conflito, como se fosse a coisa mais natural do mundo. (A obsessão holandesa pela bicicleta dá mesmo arte: há uma ciclovia luminosa que homenageia Van Gogh em Eindhoven que vale a curiosidade.)

Houve um momento noutro canto da cidade que me ficou na memória por razões completamente diferentes. Crianças a chegar à escola a pé ou de transportes públicos, sozinhas ou acompanhadas, sem o caos habitual de carros em fila dupla. Uma cena banal para quem é dali. Para mim foi intrigante — e de certa forma reveladora do tipo de cidade que Amesterdão decidiu ser.

O absurdo irresistível dos patos de borracha

A primeira loja de patos de borracha da minha vida também foi em Amesterdão. Centenas deles, de todos os temas imagináveis — profissões, personagens de filmes, figuras históricas, fantasias de todo o tipo. É completamente absurdo e completamente irresistível. Não sei bem porquê, mas saí de lá com um sorriso.

Zaanse Schans: paragem obrigatória

Fora da cidade, Zaanse Schans é paragem obrigatória — não sugestão, obrigatória. Uma vila histórica holandesa preservada como se o tempo tivesse parado: moinhos de vento em funcionamento, casas de madeira verde, o cheiro a madeira e a campo. E fica já a nota: se a visita calhar na primavera, os campos de tulipas coloridas à volta completam o cenário de uma forma que já me deu vontade de voltar só para isso. É uma das razões que ficou na lista para a próxima vez.

Quem passa por Amesterdão sem ir a Zaanse Schans perdeu metade da viagem.

A cidade construída à força

O que mais me surpreendeu, no fim de tudo, foi a circulação. A facilidade com que se anda, a disponibilidade das pessoas para ajudar, e os canais — os milhentos canais que quase fazem da cidade um labirinto. Juntando a isso a arquitetura das casas, todas coladas umas às outras, altas e estreitas, a ganhar terreno em altura porque em largura não havia, percebe-se que Amesterdão foi construída à força.

E que foi exactamente essa força que lhe deu o carácter. Se há outra cidade que faz dos canais a sua identidade, é Veneza — e temos um roteiro para a conhecer num dia.

O A’DAM Lookout, à noite

Mas se há um momento que encapsula tudo isso de uma forma que não se esquece, foi à noite no A’DAM Lookout. Uma vista de 360 graus sobre a cidade iluminada, os canais a reflectir as luzes, a escala de Amesterdão de repente visível de uma vez só. E para quem se atrever, há um baloiço no topo do edifício que balança sobre o vazio — a adrenalina é real, a sensação é inexplicável. É daquelas experiências que a pessoa sabe que vai contar mas não consegue descrever bem. Eu sei, estou a tentar e não chega.

Voltava? Sem dúvida. Mas agora com tempo para me perder de propósito — e para voltar ao Lookout de noite. No fundo, Amesterdão pertence por mérito próprio a qualquer lista das melhores cidades a visitar pelo mundo fora. Para quem quiser planear a viagem, o guia de Amesterdão no TripAdvisor é um bom ponto de partida.

 

  

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