Milão-Cortina 2026: O Destino Mais Mediático do Inverno e os Segredos das Dolomitas
Em fevereiro de 2026, os olhos do mundo apontam para os Alpes italianos.
Os Jogos Olímpicos de Inverno Milão-Cortina 2026 são os primeiros da história a serem partilhados por duas realidades tão distintas: a Milão urbana e cosmopolita e a alpina Cortina d’Ampezzo.
O resultado coloca as Dolomitas como o cenário mais fotografado do planeta entre 6 e 22 de fevereiro. Para quem ama a montanha, é o grande destino mediático do ano.
Mas há muito mais por trás dos postais do que a televisão vai mostrar — e nem tudo é tão glamoroso quanto parece.
A “Rainha das Dolomitas” e a sua veia olímpica
Cortina d’Ampezzo, a 1224 metros de altitude no coração do Véneto, é apelidada de “Rainha das Dolomitas”.
Não é estreante olímpica: já recebeu os Jogos de Inverno de 1956, que ficaram para a história por terem sido dos primeiros amplamente transmitidos em direto na televisão europeia.
Foi nessa década dourada que a vila se tornou o refúgio do jet set italiano e internacional, com hotéis de fachada elegante, cafés à moda antiga e uma reputação de glamour que nunca a abandonou.
Essa aura cinematográfica não é exagero de brochura turística. As Dolomitas em redor de Cortina já foram cenário de Hollywood — do James Bond de Só Para Seus Olhos (1981) às vertigens de Cliffhanger (1993) —, como recordamos no Mundo de Cinema.
Poucos visitantes se dão conta de que estão a esquiar ou a caminhar pelos mesmos cumes que serviram de pano de fundo a estas produções.
Porque 2026 é irrepetível
O modelo destes Jogos é inédito. As provas espalham-se por uma dúzia de sedes entre a Lombardia e os Dolomitas.
A cerimónia de abertura acontece no histórico estádio de San Siro, em Milão, enquanto as disciplinas de montanha — esqui alpino feminino, curling, bobsleigh e trenó — se concentram em Cortina e arredores.
É o maior acontecimento desportivo a passar por Itália em décadas. E faz parte de um calendário de 2026 dominado pelo desporto, que inclui também o Mundial de futebol, que acompanhamos ao detalhe no Mundo de Futebol.

Milão, a outra metade dos Jogos
Se Cortina representa a montanha, Milão é a vitrina urbana do evento.
Capital mundial da moda e do design, a cidade recebe as provas de gelo e a abertura, e promete combinar o Duomo, a Galleria Vittorio Emanuele II e a Última Ceia de Leonardo com a febre olímpica.
Para o viajante, é uma oportunidade rara de juntar num só roteiro a alta cultura citadina e a natureza bruta dos Alpes, a poucas horas de comboio de distância.
Segredos e curiosidades pouco noticiadas
A célebre pista de esqui alpino de Cortina chama-se Olimpia delle Tofane e é uma das mais temidas do circuito feminino da Taça do Mundo, com a descida vertiginosa do Schuss e a estreita Canalone.
Outro segredo: a pista de bobsleigh e trenó “Eugenio Monti”, encerrada durante anos, foi alvo de uma polémica e dispendiosa reconstrução para 2026, depois de se ter equacionado realizar a prova no estrangeiro — um símbolo perfeito da tensão entre tradição e custos destes Jogos.
Há ainda uma anedota deliciosa de 1956: na cerimónia de abertura, o último portador da tocha, o patinador Guido Caroli, tropeçou num cabo de televisão e caiu à vista de todos — sem, milagrosamente, apagar a chama.
E uma camada cultural que escapa à maioria: o vale de Ampezzo tem identidade ladina, uma língua retorromânica falada há séculos nestes vales.
Ela sobrevive em topónimos, festas e numa gastronomia própria — provar os casunziei, raviolis de beterraba típicos da região, é entrar nessa história pela boca.
O lado crítico: neve artificial, preços e multidões
Convém ser honesto. Visitar Cortina durante os Jogos é caro e cheio.
Os preços de alojamento disparam, as reservas esgotam com meses de antecedência e as estradas de montanha ficam congestionadas.
A própria neve levanta questões: boa parte das pistas depende cada vez mais de neve artificial, num inverno alpino crescentemente marcado pelas alterações climáticas.
O contraste entre a imagem imaculada da televisão e os canhões de neve a trabalhar a plena potência é uma das verdades menos publicitadas do evento.

Se o objetivo é conhecer as Dolomitas e não necessariamente assistir às provas, a recomendação é clara: evite a janela olímpica.
Aldeias vizinhas como San Vito di Cadore, Dobbiaco ou Misurina oferecem a mesma paisagem deslumbrante por uma fração do preço e sem a confusão dos grandes dias de competição.
Quando ir e como aproveitar
Para esquiar com menos gente, janeiro e março são geralmente preferíveis a fevereiro.
No verão, Cortina reinventa-se como capital do trekking: as Dolomitas são Património Mundial da UNESCO desde 2009, com trilhos lendários como o que rodeia as Tre Cime di Lavaredo e vie ferrate para os mais aventureiros.
Antes de partir, vale a pena planear a estadia pelo site oficial de turismo de Cortina d’Ampezzo, que reúne alojamento, transportes e a agenda de eventos.
Como chegar e mover-se
Cortina não tem aeroporto nem estação de comboio próprios, o que faz parte do seu encanto — e do seu desafio logístico.
Os aeroportos mais práticos são os de Veneza (Marco Polo) e Treviso, a cerca de duas horas de carro, ou Veneza Mestre como porta de entrada de comboio, seguida de autocarro a subir os vales.
Durante os Jogos, a organização promete reforçar as ligações de transporte público entre Milão, Veneza e as sedes de montanha, para reduzir o trânsito que historicamente sufoca a região no inverno.
Fora do período olímpico, alugar carro dá liberdade para explorar passos alpinos lendários como o Falzarego e o Giau, mas exige condução atenta e pneus de inverno, obrigatórios por lei entre novembro e abril.
Quem prefere não conduzir encontrará uma rede de autocarros locais que liga Cortina às aldeias vizinhas e aos principais trilhos.
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Mediática, glamorosa e exigente, Milão-Cortina 2026 vai colocar as Dolomitas no centro do mundo durante umas semanas.
Resta a cada viajante decidir o que procura: fazer parte do espetáculo olímpico, com tudo o que isso implica de custos e multidões — ou descobrir, fora dos holofotes e com tempo, a montanha extraordinária que continuará ali muito depois de a chama se apagar.
