Durante décadas, a Arábia Saudita esteve praticamente fechada ao turismo.
Hoje, é um dos destinos mais comentados do mundo — e o seu cartão de visita chama-se AlUla.
Este vale no noroeste do país guarda túmulos com dois mil anos, montanhas esculpidas pelo vento e um oásis de palmeiras a perder de vista.
É, sem exagero, uma das grandes revelações turísticas de 2026.
Quem ali chega percebe depressa porquê: a escala das paisagens e a quase ausência de filas dão uma sensação rara de privilégio e descoberta.
Só em 2019 o reino começou a emitir vistos de turismo para visitantes comuns.
A aposta faz parte do plano Visão 2030, que procura reduzir a dependência do petróleo e diversificar a economia.
No centro dessa estratégia está o turismo, e AlUla é o seu projeto-bandeira, alvo de investimentos colossais.
O objetivo é claro: mostrar ao mundo uma face do país muito diferente da que dominava as notícias.
Em poucos anos, AlUla passou de povoação remota a destino de luxo, com hotéis assinados por arquitetos famosos e voos diretos de várias capitais.
A grande joia é Hegra, também conhecida como Madain Salih.
Foi a segunda cidade do império nabateu — o mesmo povo que esculpiu a célebre Petra, na Jordânia.
Aqui erguem-se mais de uma centena de túmulos monumentais talhados diretamente na rocha, o mais famoso dos quais o solitário Qasr al-Farid.
Em 2008, Hegra tornou-se o primeiro sítio do país a entrar na lista do Património Mundial da UNESCO.
E, ao contrário de Petra, percorre-se quase sem multidões — uma raridade num sítio arqueológico desta importância.
As fachadas combinam influências gregas, egípcias e mesopotâmicas, prova de que este era um cruzamento de civilizações há dois milénios.
A natureza também esculpiu obras-primas em AlUla.
A mais famosa é a Elephant Rock, um enorme monólito de arenito vermelho com a forma inconfundível de um elefante.
Ao entardecer, a rocha ganha tons dourados e transforma-se num dos cenários mais fotografados do país.
Mesmo ao lado da AlUla moderna sobrevive a cidade velha, um dédalo de casas de barro abandonadas.
Durante séculos foi paragem obrigatória nas rotas de peregrinação e comércio.
Hoje, restauram-se as suas vielas e oficinas, devolvendo vida a um lugar que parecia esquecido pelo tempo.
Por aqui passavam as caravanas da Rota do Incenso, que ligavam o sul da Arábia ao Mediterrâneo carregadas de especiarias e mirra.
Ao fim da tarde, os cafés e as lojas de artesanato recriam o ambiente de um antigo souk, agora pensado também para o visitante.
AlUla não é só pedra e história: é também um imenso parque de aventura.
Há percursos de tirolesa sobre canyons, passeios de balão de ar quente ao nascer do sol e caminhadas por desfiladeiros estreitos.
Na reserva de Sharaan, decorre um ambicioso programa de reintrodução do leopardo-árabe, uma das espécies mais ameaçadas do planeta.
Sobrevoar o vale de balão de ar quente é uma das experiências mais procuradas, com os túmulos e as falésias a ganharem outra dimensão vistos do alto.
O oásis de AlUla esconde mais de dois milhões de palmeiras e pomares de citrinos, irrigados por um sistema com milhares de anos.
Antes dos nabateus, floresceram aqui os reinos de Dadan e Lihyan, cujos vestígios incluem túmulos com leões esculpidos na falésia.
O céu noturno é tão limpo que AlUla se promove como destino de observação de estrelas.
E há uma proeza arquitetónica recente: o Maraya, o maior edifício revestido a espelhos do mundo, segundo o Guinness.
É lá que se realizam grandes concertos internacionais, que acompanhamos no Mundo de Músicas.
É impossível falar da Arábia Saudita sem referir as críticas em matéria de direitos humanos e direitos das mulheres.
Muitos viajantes debatem-se com a questão ética de visitar o país, e cada um terá de fazer a sua escolha informada.
Na prática, as regras para turistas foram bastante suavizadas, embora o álcool continue proibido e se espere vestuário discreto.
Há ainda o calor extremo do deserto e o facto de muitas infraestruturas serem novas, caras e ainda em construção.
Poucos edifícios resumem tão bem a ambição de AlUla como o Maraya.
Coberto de espelhos, reflete a paisagem do deserto e quase desaparece nela, num truque visual extraordinário.
Serve de sala de concertos e centro de eventos, símbolo da aposta cultural do reino.
Em redor, instalações de arte contemporânea pontuam o deserto, no âmbito de bienais que trazem artistas de todo o mundo a AlUla.
A cozinha de AlUla nasce daquilo que o oásis dá.
As tâmaras locais, doces e carnudas, são presença obrigatória, tal como os citrinos e o mel do deserto.
Restaurantes recentes reinterpretam a tradição beduína com produtos da própria terra, num movimento de “quilómetro zero” em pleno deserto.
AlUla tem aeroporto próprio, com ligações às principais cidades sauditas como Riade e Jidá.
A melhor época vai de outubro a março, quando o calor é suportável e decorre o festival Winter at Tantora.
No verão, as temperaturas tornam as visitas diurnas penosas, pelo que muitos programas passam para o início da manhã ou o fim do dia.
Para organizar a visita, o portal de turismo oficial de AlUla reúne reservas e experiências, tal como o site Visit Saudi.
Convém reservar com antecedência: o número de visitantes diários em Hegra é limitado para proteger o sítio arqueológico, e os bilhetes esgotam com frequência nas épocas mais concorridas.
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Antiga e futurista, polémica e deslumbrante, AlUla é um dos destinos que melhor traduz as contradições e a ambição do nosso tempo.