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Moçambique: um dos países mais pobres do Mundo

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Moçambique: um dos países mais pobres do Mundo

 

A República de Moçambique situa-se na costa sudeste de África, fazendo fronteira com a África do Sul, com o Zimbabwe, com a Zâmbia, com o Malaui, com o Lago Niassa e com a Tanzânia, além do Oceano Índico que banha a costa leste do país. Tem uma área de 799 380 quilómetros quadrados, oito vezes maior do que Portugal, com uma população na ordem dos 20 milhões de habitantes. A capital é a cidade costeira de Maputo (ex-Lourenço Marques), situada no sul do país, onde vive cerca de 15 por cento da população moçambicana.

Maputo foi uma cidade fluorescente até à independência de Moçambique, em 1975, principalmente por causa dos seus atractivos turísticos, nomeadamente o clima tropical, e também pelo elevado número de rotas comerciais marítimas que tinham paragem obrigatória no porto de Maputo. No entanto, devido à permanente situação de instabilidade interna e à degradação das relações externas com os países vizinhos, principalmente a África do Sul e a Rodésia (actual Zimbabwe), Maputo perdeu as características que a distinguiam, instalando-se uma situação de decadência urbana.

O desenvolvimento de Moçambique foi, e continua a ser, condicionado pelo forte crescimento da população. A enorme percentagem de população com menos de 15 anos condiciona a diminuição da taxa de mortalidade, especialmente a mortalidade infantil, e a escassa alfabetização da população (apenas 18 por cento das mulheres e 52 por cento dos homens sabiam ler e escrever em 1990), aliada às más condições de acesso a água potável e ao deficiente saneamento básico são outros dos factores que prejudicam a evolução do país.

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O que faz de Moçambique um dos países mais pobres do mundo?

Quando visitei o país em 2002, toda a economia moçambicana se encontrava num estado de profundo subdesenvolvimento, com 43 por cento da população a subsistir na pobreza absoluta.

O principal sector económico, a agricultura, considerada a chave para o desenvolvimento económico-social, ocupava 80 por cento do total de mão-de-obra mas, apesar disso, constituía em meados da década de 90 apenas 33 por cento do Produto Interno Bruto (PIB). A agricultura moçambicana, com características familiares e praticamente sem aplicação de qualquer tecnologia, tem como principais produções o milho, a mandioca, o feijão e o arroz, sendo a actividade complementada pela criação de gado.

Por outro lado, a produção agrícola para exportação assenta no açúcar, no chá e nos citrinos, produtos incrementados na era colonial e que continuaram a ser produzidos (embora a níveis mais baixos) em plantações privadas, em quintas estatais ou cooperativas do Estado. Também a exploração florestal decresceu após a independência, apesar do interesse de diversos investidores internacionais. Quanto à actividade piscatória, ela tem-se revelado praticamente imune à instabilidade geral verificada em Moçambique, já que os rendimentos provenientes da captura e venda de cavala, sardinha, atum e, sobretudo, camarão e lagosta, têm vindo a aumentar gradualmente desde o início da década de 70.

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O sector industrial engloba pequenas indústrias ligadas à exploração mineira e à manufacturação de matérias-primas para exportação. Ambas as vertentes se encontram subexploradas, principalmente a que está ligada à exploração mineira, mas os recursos minerais são consideráveis e encontram-se facilmente minérios com elevados níveis de qualidade, como o ferro, bauxite, cobre, grafite, mármore, granada (uma pedra preciosa) e pedra de cal. Numa extraordinária ironia, relacionada com a escassez tecnológica em que vivem os moçambicanos e a era digital em que vive o Mundo, o território tem a maior reserva mundial de um minério raro e muito importante para a indústria electrónica: a tantalite.

Destaque-se também que Moçambique poderia ser o maior produtor de energia eléctrica do sul de África, se a barragem de Cahora Bassa e os seus condutores de energia estivessem devidamente aproveitados. Contudo, devido à guerra civil que se viveu durante anos após a independência, este gigantesco projecto hidroeléctrico, concebido por um consórcio internacional (com o objectivo primordial de satisfazer as necessidades da África do Sul) e concluído em 1974, continua a contribuir com apenas 10 por cento no total da produção de energia eléctrica que é sustentada, na sua maioria, por estações termais.

Por todas estas razões, Moçambique foi durante vários anos considerado o país mais pobre do Mundo no final do século XX. Uma análise política e económica permite constatar que tal facto deve-se, sobretudo, à falta de sublimação dos valores que o território contém, aos altos índices de corrupção na política, à falta de preparação técnica, ética e democrática dos agentes sociais, à dependência do país face à comunidade internacional, aos anos perdidos da guerra civil e à degradação dos sistemas de áreas tão fundamentais como as comunicações, a justiça, a educação, a saúde e o comércio.

O enorme potencial do país apenas tem comparação com a falta de aproveitamento do mesmo. Uma análise humana e social, mesmo que meramente emocional, revela que é uma tremenda injustiça que um povo, desde sempre subjugado aos interesses de outras nações, continue a viver num imenso contraste de riqueza e pobreza.

A imagem de um país onde existe tanta riqueza natural, onde o solo é tão fértil que basta uma semente cair ao chão para começar a crescer, onde vales infindáveis abrigam gigantescas plantações de coqueiros e bananais e dezenas de outras variedades alimentares, onde as linhas de força que orientam o Homem são as copas das árvores, densas, verdes e espessas, com frutas e vagens coloridas, onde o azul do céu é mais azul porque, naquela linha do horizonte que divide o mar do espaço, existem nesta atmosfera reflexos e tons únicos, numa terra onde o Sol e a Lua continuam a predominar nos ritmos das vidas humanas, onde os sons dos bichos do mato se sobrepõe aos ruídos das máquinas e os rios e os mares possuem caudais de peixes e espécies tropicais e infinitas, nessa mesma terra subsiste um grande contraste.

Nesta terra em que tudo isto acontece em paralelo com a corrupção, com a fome, com a miséria humana, com a escassez de bens de uns e a ostentação perversa de outros, está demonstrada, mais uma vez e como sempre, que o Homem não consegue nunca ser tão nobre como a Natureza, a qual, por muitas vezes que nos pareça ser injusta, tem um ciclo definido que nós continuamos, os humanos, insistentemente a sabotar.

ESTE É O SÉTIMO ARTIGO DA REPORTAGEM:

MANHIÇA, TERRA DE TRAGÉDIA, TERRA DE ESPERANÇA (Parte I)

A CHEGADA DOS PORTUGUESES À ÁFRICA AUSTRAL (Parte II)

 O EPISÓDIO DO CÉLEBRE NAUFRÁGIO DE D. MANUEL DE SOUSA DE SEPÚLVEDA (Parte III)

MOÇAMBIQUE: A FORMAÇÃO DE UMA NAÇÃO AFRICANA (Parte IV)

O FATÍDICO 7 DE SETEMBRO DE 1974 EM MOÇAMBIQUE (Parte V)

OS ANOS DA GUERRA CIVIL DE MOÇAMBIQUE (Parte VI)

CONTINUAÇÃO DA REPORTAGEM NO PRÓXIMO ARTIGO:

CHEIAS DE 2000 EM MOÇAMBIQUE: A TEMPESTADE DAS TORMENTAS (Parte VIII)

 

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