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Meca: a cidade santa do islamismo já não é o que era

Meca: a cidade santa do islamismo já não é o que era

 

Meca, a cidade islâmica situada na Arábia Saudita que dá abrigo à Grande Mesquita, tem sido alvo de transformações nas duas últimas décadas. Hoje, quem por lá passa, vê as torres da mesquita serem suplantadas em altura por dezenas de gruas e maquinaria pesada de construção civil. À medida que expansões são feitas, para alargar os espaços de oração e criar complexos imobiliários, monumentos históricos são dizimados sem impunidade.

Neste post, é para a Arábia Saudita que viajamos, de forma a tentar perceber as motivações que levam a esta mudança paisagística que está a gerar tanta polémica.

Meca: a cidade que está a arrasar a história

Um círculo verde fluorescente a pairar no céu noturno: é esta a visão que temos de Meca ao anoitecer. Entre um emaranhado denso de guindastes, estruturas de betão e minaretes está lá aquele brilho, distinguindo-se sem igual à distância, marcando a passagem do tempo. É o Abraj al-bait, como será capaz de lhe dizer algum local. Abaixo está uma fotografia daquele que é o maior relógio do mundo, maior ainda mesmo que o da torre do Big Ben. Visível a 30 quilómetros de distância, ergue-se a mais de 600 metros acima da Grande Mesquita, o coração espiritual do mundo islâmico.

O relógio encontra-se no edifício mais alto das torres Abraj Al-Bait, um complexo imobiliário que procura imitar a arquitetura de um palácio e abriga, entre as suas paredes, uma série de hotéis e apartamentos de luxo, alcandorados sobre cinco pisos de um centro comercial. Concluída em 2012, esta belíssima construção que podemos encontrar em Meca teve um custo de 11 mil milhões de euros.

Mas mais surpreendente que o preço, é sabermos que se ergue exatamente sobre o fortim de Ajyad, uma fortaleza otomana construída em 1781 para proteger a cidade dos invasores. Era mais ou menos o mesmo que, em Portugal,  deitar abaixo o Castelo de Guimarães para construir um supercomplexo com hotéis e centros comerciais.

Como seria de esperar, a demolição da cidadela de pedra desencadeou um protesto internacional em 2002. Por todo o mundo surgiram contestações contra a demolição de um edifício com tamanho valor histórico. Em resposta, o então ministro saudita dos Assuntos Islâmicos justificou que “Ninguém tem o direito de interferir no que respeita à autoridade do Estado”. Assim, a fortaleza foi arrasada, tal como a colina onde se erguia. Assim se começaram as construções.

Em declaração ao The Guardian, em 2013, Sami Angawi lamentou este desprezo pelo património. Arquiteto e fundador do Hajj Research Center, em Jeddah, passou as últimas três décadas a pesquisar e documentar os edifícios históricos de Meca e Medina, já praticamente todos desaparecidos.

A casa de Khadija, esposa do Profeta, foi arrasada para dar lugar a balneários públicos. A de Abu Bakr, companheiro do profeta, é agora um Hotel da cadeia Hilton e, por sua vez, a residência do neto do Profeta foi tragada pelo palácio real. “Estão a transformar a Cidade Santa numa máquina, uma cidade sem identidade, nem património, nem cultura, nem ambiente natural. Até os montes são removidos”, lamenta Angawi.

A (Nova) Grande Mesquita: custos, tragédia e adoração

Outro grande conjunto arquitetónico está em fase de conclusão em Al-Shamiya, no lado Norte da Grande Mesquita. Este é um projeto sem dúvida histórico que pretende alargar o espaço de adoração e receber de forma mais confortável cerca de 1,2 milhões de peregrinos por ano. No total, foram investidos cerca de 7,5 mil milhões de euros de forma a acrescentar 400 mil metros quadrados de salas de oração ao santuário.

 

Mas a fatura é pesada e não apenas pela quantidade de zeros que fazem parte do número. Uma vez mais, o desaparecimento de património volta a estar em causa. A região onde se ergue a expansão da Grande Mesquita “era a parte mais histórica da cidade velha”, contou Irfan al-Alawi, ao The Guardian.

Durante os últimos anos, Alawi tem tentado usar o seu poder como diretor executivo da Islamic Heritage Research Foundation, uma organização sediada no Reino Unido, para defender o património histórico islâmico. No entanto, os resultados não têm sido positivos. Entretanto, os projetos de construção em Jabal Khandama, nas colinas a leste, provocararam o desaparecimento do local onde o profeta Maomé nasceu.

Mas porque é que isto acontece? Por que razão monumentos históricos continuam a ser desprezados em favorecimento de grandes projetos arquitetónicos? Segundo Irfan Al-Alawi, a destruição do património islâmico não é acidental: é impulsionada pelo wahabnismo, o dogma fundamentalista do Estado, que faz uma interpretação literal do Corão e que, por sua vez, considera que os locais históricos incitam à idolatria.

E estão os projetos a compensar o investimento feito? Para já, os resultados ficam muito aquém do esperado. A maioria dos hotéis continuam a ser grandes demais para o número de hóspedes e os centros comerciais parecem desertos: as rendas são demasiado caras para quem tinha uma venda no souk.

Além disso, há um grande inconveniente que pode não ser aceite por qualquer peregrino: no futuro, as pessoas que forem rezar na nova extensão da mesquita não vão conseguir sequer ver a Cabba. Para quem não se lembra, a Cabba é o cubo santo negro que ocupa o centro da Grande Mesquita, em torno do qual os peregrinos têm de executar sete voltas a pé.

2015 provou ainda não ser um bom  ano para a cidade de Meca ou para os peregrinos. No dia 11 de setembro, durante a peregrinação Hajj, uma tempestade derrubou um dos guindastes das obras que rodeiam a Grande Mesquita, provocando um acidente que matou mais de 100 pessoas e destruiu parte do trabalho concluído.

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